Projeto - Com amor, por favor, sem flash - 3º Sorteio



Gepina


Naquele fim de tarde de outono Penélope sabia que alguma coisa não ia bem.
Sua boneca de madeira, a Gepina, era sua companheira. Tinha-a feito quando ficou sem sua boneca de pano, após uma tempestade assolar a região onde morava com seus pais. Moravam numa casa humilde e simples, que não aguentou a impetuosidade dos ventos. E cedeu. Com ela, sua bonequinha de pano desapareceu. Com os destroços que conseguiu juntar após o fim da tempestade, enquanto iam para o abrigo juntamente com outras famílias vizinhas, ela enxergou, no meio daquele monte de pedaços disformes de madeira, a oportunidade de ter de novo uma amiguinha.
Penélope sempre foi muito sozinha. Seus pais, muito simples, trabalhavam na plantação do fazendeiro que era dono de toda aquela terra. Trabalhavam desde antes de o sol sair e só chegavam já tarde, no começo da noite. No meio deste período todo Penélope tinha de ficar sozinha, mesmo contando ainda com apenas seis anos de idade. A produção era muita, o pagamento muito baixo, então sua mãe não pôde mais ficar com ela em casa. Daí a bonequinha de pano passou a ser sua companheira por horas e horas. Após a tempestade Penélope ficou novamente só. Mais só do que se lembrava ser. Até que enxergou aqueles pedaços de madeira, ajuntados num cantinho do quintal no meio dos destroços do resto todo da casa.
Os pedacinhos de madeira brilhavam. Não aos olhos de todos, mas aos olhos de Penélope brilhavam. Tinham cores diversas, dependendo do cair dos raios do sol sobre eles. Penélope via, a princípio, como que uma lâmpada acesa no meio da destruição. Mas, era possível? Foi andando ao encontro daquela luz e à medida que caminhava as cores iam variando, sempre e cada vez mais forte. Até que chegou perto o suficiente para esconder o sol da madeira, ficando entre ambos. Percebeu que eram simples e disformes madeiras. Pedaços que vinham de algum lugar, da casa dela ou da casa de qualquer das casas da vizinhança. A tempestade tinha sido muito forte e misturou o que era de todos e tudo virou de ninguém. Ela não sabia de onde poderia ter saído aquela madeira. Mas ela lhe falava ao coração, e ela brilhava. Brilhava incessantemente aos seus olhos.
Diante do chamado de seus pais Penélope pegou rapidamente, embora com cuidado, cada um dos pedacinhos daquela madeira juntinha no canto. E correu. Sentia que não ia ficar tão triste como achava quando percebeu que havia perdido tudo e sua melhor e única amiga, a boneca de pano.


***

Penélope e seus pais ficaram um bom tempo no abrigo. Com o passar dos meses conseguiram separar, com lençóis velhos vindos de doação, um espaço mais reservado para viverem. Penélope sempre foi silenciosa e tímida. Naquele local cheio de gente o tempo todo ela se fechou ainda mais. Seus pais em poucos dias voltaram ao trabalho e tinham que sair ainda mais cedo e voltar ainda mais tarde, para dar conta de toda a arrumação que foi preciso fazer
na fazenda para voltarem logo ao plantio e poder novamente ter renda suficiente para restaurar sua casa.
Durante os primeiros dias naquela nova vida Penélope deixou a madeirinha escondida sob seu travesseiro improvisado que sua mãe havia preparado para ela. Tinha medo que brilhassem e chamassem atenção de outras garotas que tinham por ali. Penélope não gostava do olhar e das brincadeiras delas.
Mas aos poucos foi se sentindo mais à vontade e as meninas pararam de incomodá-la. Aprendeu desde cedo que os que nos incomodam só permanecem se percebem que nos incomodam. Se não damos a mínima, eles desistem e vão embora.
No primeiro dia realmente quente de sol que surgiu, Penélope saiu para a rua. Tudo estava mais alegre e colorido lá fora. Com a madeira debaixo do braço embrulhada em um jornal velho, Penélope via tudo de forma diferente. Até se sentia mais bonita, se sentia feliz e a solidão desaparecia. Caminhou até uma árvore que tinha visto pela janela do abrigo. Viu que as folhas estavam caindo, se preparando para o inverno que chegaria, mas ainda assim estava bonita, com folhas em mudança de cor parecia que eram flores. Penélope decidiu que seria ali que daria forma à sua mais nova amiguinha.
Sentou-se confortavelmente e colocou seu lanchinho ali do lado – um pedaço de pão amanhecido e uma caneca com água da mina. Desenrolou calmamente os pedaços de madeira do jornal e encontrou os fios coloridos que havia guardado no bolso do vestido. Aqueles fios estavam outro dia enrolados no lixo que alguém jogou num canto logo na entrada do abrigo. Penélope desembaraçou e enrolou cada um dos fios e os guardou para este momento.
Deu uma breve olhada em volta e, vendo-se sozinha e sem olhares curiosos, começou a trabalhar a madeirinha. Não queria cortá-la. Sentia como que se elas pudessem sentir caso as cortasse. Mas percebia umas arestas em cada uma delas, com cores e textura diferente, como aquelas parasitas que se juntavam na arvorezinha que tinha no fundo do quintal da sua antiga casa. Sabia que aquilo não fazia parte da madeira original e foi retirando com carinho e cuidado, com as pontas dos dedos.
Trabalhou nesta limpeza da madeira durante umas horas e sentiu sono, as pontas de seus dedos estavam dormentes e avermelhados. Tinham se tingido da cor daqueles pedacinhos que ia tirando com calma de sua já querida madeirinha. Resolveu comer um pouco e descansar.
Ao desembrulhar o pedacinho de pão ela notou que ele tinha uma coloração diferente. Penélope estranhou, mas aprendeu com as durezas da vida que alimento algum pode ser desperdiçado ou menosprezado. Deu uma mordida pequena para sentir a textura e sabor.
Maçã. Maçã era o alimento preferido de Penélope, embora se lembrava de ter comido uma apenas duas vezes ao longo de seus seis anos de vida. Mas ainda assim havia determinado que era seu alimento preferido. Adorava o barulhinho que fazia a cada mordida, gostava da textura mais rígida da casca, amava a massa branca e doce. Na segunda vez que comeu saboreou até mesmo as sementinhas, depois de sua mãe a tranquilizar dizendo que não, não iria crescer uma ‘árvore de maçãs’ dentro de sua barriga. Se lembrava de ficar com as sementinhas dentro da boca um tempo antes de engolir, porque queria perpetuar aquele sabor em sua boca.
E agora, mordendo aquele pedaço de pão velho e amarelado, era este sabor que sentia novamente. Chegou a fechar os olhos e parar de mastigar, como era gostoso aquele sabor! Foi comendo devagar e saboreando cada pedacinho. Sempre de olhos fechados, com medo de perder o sonho, Penélope acabou adormecendo sem perceber enquanto comia.


***

Não sabia quanto tempo depois acordou sobressaltada, ao sentir suas pernas úmidas. Demorou a entender onde estava e perceber que estava sob a chuva, ainda deitada nas raízes daquela grande árvore. Se levantou correndo e juntou tudo que tinha ali. A caneca já vazia, as madeirinhas e os fios. Engraçado, os fios pareciam estar enroscados nos pedaços de madeira. Mas a chuva estava apertando e não tinha tempo de ajeitar tudo agora. Pegou tudo rapidamente e de qualquer jeito, enrolou no jornal velho já meio manchado pela água e voltou correndo para o abrigo.
Não se arriscou a abrir o pacote de suas madeirinhas naquela noite. Tinha medo de que, como agora estavam limpinhas, elas pudessem novamente brilhar como na primeira vez que as vira, e chamar atenção de quem quer que fosse. Aquelas madeiras eram dela, um segredo dela, e ninguém poderia ver.
Três dias se passaram até que o tempo estivesse melhor e permitisse que Penélope voltasse à árvore que agora já estava praticamente limpa. Suas folhas haviam montado um tapete macio sobre suas raízes e Penélope se ajeitou por ali depois de encontrar um lugarzinho mais seco mesmo após tanta chuva. Desembrulhou o jornal com certa dificuldade. As folhas haviam se colado à madeira e ficou apreensiva, com medo de tê-las manchado ou estragado por ter guardado por tantos dias embrulhado daquela forma. Quando conseguiu tirar todo o jornal, deixou cair sobre as folhas suas queridas e amadas madeirinhas brilhantes. Não podia acreditar no que via.
As madeiras estavam harmoniosamente presas e amarradas pelos fios coloridos. Formava a mais linda e charmosa bonequinha. Braços e pernas articulados, pequenos e delicados dedinhos, pezinhos minúsculos e arredondados. Cabeça presa a um delicado pescocinho. As pequenas cavidades formavam um rostinho lindo e sorridente. Tudo preso com os fios coloridos que mostravam um brilho leve e sutil, como se tivessem um fio com cor de ouro, que Penélope havia visto na festa da fazenda no Natal do ano anterior e que a deslumbrara tanto na época. Seu pai lhe explicou que eram fios de ouro. Penélope aprendeu que fio de ouro era uma coisa linda e espetacular, e agora sua boneca de madeira tinha aquele mesmo brilho em um pedacinho ou outro dos fios que prendiam as peças de sua boneca de madeira. Naquele instante Penélope a batizou de Gepina. Nome da mocinha da torre da história que sua mãe lhe contava toda noite antes de dormir. Gepina era agora a sua mais nova amiguinha. Penélope não queria saber o que ou quem tinha feito tudo aquilo. Estava feliz por ter sua amiguinha e não quis entender. Só aproveitou aquela tarde gostosa e brincou com sua Gepina como há muitos meses não brincava. Voltou para o abrigo ao cair da tarde feliz, com dores nas pernas de tanto correr pelo campo e com um sorriso que nem mesmo a sujeira e excesso de gente do abrigo poderiam apagar.


***

Naquele fim de tarde de outono Penélope sabia que alguma coisa não ia bem. Havia um movimento estranho por todo o abrigo, seu pai não havia ido para a fazenda e ninguém lhe dava ouvidos. Perguntou para todos em volta o que estava acontecendo, mas ninguém a parecia ouvir. Juntou sua Gepina enrolada num pequeno trapo velho que havia encontrado por ali e que agora se tornara a camuflagem de sua boneca e saiu. Na rua encontrou um caos. Muita gente, muita correria e uns homens fardados com armas nas mãos. Algumas pessoas choravam e outras corriam. Viu sua mãe correndo ao seu encontro gritando alguma coisa que Penélope não entendia.
“Volte para dentro, volte para dentro Penélope”. Era o que sua mãe lhe gritava. Sem entender o que deveria fazer diante de tanta confusão Penélope ficou paralisada e não saiu do lugar. Com o susto, não percebeu que sua Gepina estava escorregando pelo trapo velho e caia no chão.
O que aconteceu em seguida foi mágico. Assim que Gepina bateu no chão, começou a brilhar assim como brilhava no dia em que Penélope a havia encontrado. Diante do brilho, as pessoas começaram a mudar os gestos e ações, começaram a se acalmar e em pouco tempo estavam conversando calmamente e sorriam. Alguns se davam as mãos e outros se abraçavam, se despedindo com um sorriso largo nos lábios. Penélope e sua mãe olhavam para aquela cena atônitas. Não sabiam o que estava acontecendo. Até os homens de farda, ainda sérios mas já com as armas guardadas, mudaram sua atitude e voltavam para seus carros, andando calmamente. E foram embora.
Penélope percebeu então que sua boneca estava no chão e rapidamente a pegou e guardou novamente nos trapos velhos e entrou com sua mãe no abrigo. Quase todos que antes brigavam e corriam na rua estavam agora indo para suas casas e afazeres. Como se nada tivesse acontecido.
Naquela noite Penélope ouviu sua mãe contar para o pai o que havia acontecido enquanto ele estava nos fundos do abrigo procurando pelo seu facão para garantir a segurança delas duas. Pelo que Penélope entendeu, o dono daquele prédio não tinha autorizado que todos eles morassem ali durante aquele tempo. E havia chamado a polícia para retirar todos do lugar naquela mesma tarde. A mãe disse que viu de relance uma luz vindo de não sabe onde, e após esta luz, todos se acalmaram, os policiais disseram que iriam resolver a situação e que não precisávamos nos preocupar mais. A mãe não sabia, mas Penélope tinha uma desconfiança de que sua boneca tinha algo a ver com aquilo.
***
A partir deste acontecimento Penélope passou a abrir o pano que encobria Gepina sempre que alguma coisa não ia bem, e percebia que, como um passe de mágica, tudo voltava a se acertar. Quando queria comer algo, comia o que era dado, com a sua boneca sobre o colo, e o sabor era daquilo que ela queria comer. Quando chovia demais e não podia brincar, bastava colocar Gepina na janela e em poucos minutos o sol voltava a aparecer. Os pais de Penélope, simples como eram, atribuíam esta nova fase de sorte ao poder das suas orações todos os dias antes de sair para o trabalho, antes de se alimentar e antes de dormir. Finalmente suas orações estavam sendo ouvidas.
Penélope hoje tem 18 anos, trabalha na fábrica de bonecas que abriu em sua cidade 3 anos antes, cuida de seus pais e a antiga casa foi reformada. Demorou a pegar gosto pela leitura, devido à sua infância extremamente simples e limitada, mas agora visita frequentemente a biblioteca da cidade e sempre pega livros com capas coloridas para ler. Numa tarde pega um livro com um boneco de madeira na capa. Seu coração pula ao vê-lo ali. Parecia-se muito com sua Gepina, que sempre a acompanhava ainda hoje dentro de sua bolsa. Era ainda sua boneca da sorte. Seu bom agouro.
Em casa, Penélope leu em poucas horas todo o livro contando da história de Gepeto e Pinóquio. Seu boneco de madeira que não podia mentir e que ganhou vida pelas mãos de uma fada madrinha. Entendeu, finalmente, que sua boneca era mágica. Certamente sua fada madrinha a teria dado a ela como reparação por todo sofrimento daquele tempo de seus seis anos de vida. Penélope não desejava que sua Gepina se tornasse humana. Sentia pelo pulsar da madeira que ela já era viva. Carregava vida, alegria e amor desde sempre, desde que a havia encontrado ainda em forma de pequenos pedaços de madeira naquele canto do quintal.


Nadja Moreno







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  • “[. ] E aí ela sorriu.

Vanessa Medeiros

6 comentários:

  1. Que lindeza esse texto!
    Big Beijos
    Lulu on the sky
    Obs: o template tá demorando um pouco pra abrir, já pedi ajuda. Se puder aguardar, eu agradeço.

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  2. Ahhh que belezinha meu textinho aqui!!!! Obrigada flor! ^^

    Um beijo

    escrev-arte.blogspot.com.br

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  3. Nossa, o texto e a foto combinaram muito!
    Lindo conto, mas bem sofrido... Adorei!
    bjos
    valmedrado16.blogspot.com.br

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  4. Parabéns a Nadja pelo texto, muito bom.

    http://cantinhodoescritoreleitor.blogspot.com.br/

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  5. Amei o conto, foi muito bem escrito e mexeu um pouco comigo <3

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  6. Muito legal mesmo o texto, e não vou negar que sempre gostei muito do Pinóquio haha.
    Beijos!

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